quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ladeira do Horto

    
         A Rua Bom Jesus do Horto, região vulgarmente conhecida por Ladeira do Horto, congrega a maioria dos espaços e dos informantes que embasaram a nossa etnografia. A Ladeira concentra, mais do que em qualquer outro lugar de Juazeiro do Norte, práticas devocionais voltadas para o cultivo da penitência enquanto instrumento de salvação. A despeito das “modernidades” que lhe sobrevieram desde o ano de 2000, quando a visitamos pela primeira vez, para muitos dos moradores, sobretudo para os mais velhos, a Ladeira do Horto preserva ainda a presunção de solo sagrado, terreno escolhido pela Providência. Se para os peregrinos subir o Horto cantando benditos e rezando rosários constitui um preceito religioso, morar aos pés do santo de Juazeiro é uma benção perene de valor inestimável.
São abundantes as alegorias que fomentam o imaginário relativo aos atributos sobrenaturais da Ladeira, como as associações entre a Serra do Horto e o Monte  Calvário, e as comparações entre o Riacho Salgadinho que por lá passa e o Rio Jordão, por exemplo. O terreno íngreme e sinuoso, os monumentos que demarcam as estações da Via-Sacra e a gigantesca estátua do Padre Cícero no alto do monte transfiguram a Ladeira do Horto em um caminho místico e consagrado, ponto focal das peregrinações. Todavia, mais do que dedicar-se aos cenários e aos simbolismos sobremaneira ativados durante o tumulto das romarias, o nosso trabalho interessou-se principalmente pela Ladeira em sua condição ordinária; entrar nas casas, conversar com os moradores, ouvir histórias e benditos, reparar na arrumação e na contemplação dos altares domésticos, nas crianças e nas beatas. Na intenção de introduzir nossa etnografia e de favorecer a compreensão das sutilezas afetivas e visuais com que trabalhamos, elaboramos um ensaio fotográfico que visa evocar um pouco da paisagem religiosa desse lugar. Surpreendido no seu encanto cotidiano, retratamos a simplicidade de suas casas e pessoas proferindo silenciosamente, na intimidade de seus gestos e altares, um pensamento sobre fé e resignação.






As casas da Ladeira do Horto, em sua maioria, possuem uma estrutura arquitetônica semelhante. Em virtude do terreno íngreme, o acesso à porta de entrada, em alguns casos, é realizado por intermédio de largos batentes de cimento. O primeiro cômodo ocupa toda a largura da casa e dele projeta-se um estreito corredor com saídas laterais para os quartos, estendendo-se até a cozinha. Independentemente de quão modesta seja a moradia, é incontestável o esmero dedicado à ornamentação da sala que abriga a imagem do Coração de Jesus, condição que singulariza este espaço em relação aos outros lugares da casa. Para separá-lo dos outros cômodos, recorre-se, geralmente, ao uso de uma cortina branca, posicionada na extremidade do corredor. Ornando a mesinha encostada à parede, uma toalha branca bordada com motivos religiosos. Sobre este móvel, uma vela acesa. Numa parede, dezenas de imagens de santos entremeadas de flores; noutra, diversas fotografias contam sobre a família; tudo organizado na intenção de demarcar o lugar, elaborando um requinte visual que se destaca no singelo da habitação. Esse espaço sagrado será objeto da próxima postagem.




quarta-feira, 2 de abril de 2014

O começo de tudo...


A questão central deste estudo começou a se anunciar durante a minha pesquisa de mestrado, realizada no decorrer do ano de 2001, a qual visava à compreensão da relação entre música e penitência no catolicismo popular do sertão do Cariri - CE, bem como o conhecimento da função do repertório fúnebre para o êxito da Sentinela – ritual de morte realizado em muitos lugarejos nordestinos. Como em todo processo de coleta de dados, muito do material recolhido não guardava relação direta com o foco da pesquisa, não sendo, por isso, digno de reflexões mais acuradas. Entretanto, nesse caso em particular, algo em especial irrompeu com força suficiente para reclamar atenção especulativa, a despeito de aparentemente não se comunicar com o cerne na pesquisa.
Durante uma pesquisa de campo realizada em Juazeiro do Norte, aconteceu-me adentrar um salão lateral de uma igreja católica onde se reunia um grupo de membros de alguma pastoral. Eu estava à procura de pessoas que soubessem cantar os benditos tradicionais do repertório fúnebre ou que tivessem participado de Sentinelas, na intenção de entender os usos das músicas no decurso do rito de exéquias sertanejo, bem como investigar como esse repertório musical contribuía para a eficácia ritual. Qual foi minha surpresa, quando após informar minhas intenções e o objeto de minha pesquisa, as pessoas que se encontravam na sala cuidadosamente se negaram a prestar informações sobre o tema, alguns chegando a externar enorme desconforto e realizar sucessivos “sinais da cruz” como que se protegendo de algum mal possível que se exalasse da simples possibilidade de se comentar o assunto. Agradeci e me retirei do recinto levando comigo imagens das fisionomias recalcitrantes e de uma agitação dissimulada provocadas pela minha pergunta e presença.
Este incidente me fez recordar outro episódio que o precedeu e que parecia lhe estar relacionado. Na semana anterior, por informações diversas fui levado a procurar o Sr. Nilton, um sacristão que me disseram conhecer bem os antigos benditos. Nossa conversa ocorreu dentro da igreja. Detidamente ele me explicou como eram realizadas as sentinelas e forneceu detalhes sobre as rezas, explicando os rigores e precauções de seu uso durante a Sentinela. Após certo tempo de conversa eu o solicitei que cantasse alguns benditos, o homem olhou ao redor da sacristia, como se quisesse, ou não quisesse encontrar alguém em especial, e se recusou a fazê-lo sob o argumento de apenas conhecer alguns “pé”, ou seja, alguns versos ou estrofes. Como essa era a minha segunda viagem de campo e, portanto, já havia realizado algumas gravações e transcrições musicais, eu conhecia dos benditos o suficiente para me permitir cantar uns “pé” na intenção possível de deixar o Sr. Nilton mais à vontade pra entoar alguns benditos. Aos poucos ele foi se sentindo mais confortável pra cantar, mas entoando sempre baixinho e sem concluir as músicas, até que por fim, quando o interpelei sobre a forma cautelosa com que cantava, revelou-me que as pessoas não “gostam mais que se cantem essas coisas” e que o padre certamente o repreenderia se o soubesse cantando-as.
Eu me perguntava o que haveria naqueles benditos que o mero falar sobre eles, para algumas pessoas, já era causa de tamanho incômodo. Eu já conhecia suficientemente o repertório para saber que os temas mais recorrentes nos textos dos benditos diziam respeito a narrativas sobre morte, penitência e salvação, o que a um primeiro olhar não trazia grandes afrontas àqueles presentes nas músicas religiosas atuais. Mais do que preferência pelo novo repertório musical utilizado nas igrejas, havia para alguns fiéis, outrossim, uma absoluta recusa de sequer conversar sobre a forma antiga de cantar tal repertório. Ainda que este fato não tenha representado grande inflexão naquela pesquisa etnográfica, haja vista desviar-se da reflexão central empreendida na dissertação de mestrado, o acontecido foi suficiente para que se descortinasse um segundo olhar, secundário, mas que manteve-se latente durante toda pesquisa, atento, sobretudo às coisas não ditas.
Essa foi a primeira vez que a decepção de não encontrar informantes não fora acompanhada de qualquer frustração, mas de um misto de curiosidade e, em certa medida, de algum tipo de angústia, definida talvez em função da impotência ante o mistério que se me apresentava. Ainda sem bem saber o que aquilo tudo significava, a minha etnografia, sobretudo sonora, tinha se mostrado impotente para traduzir os estados de ânsia que se instauravam nas mãos, nos olhos, no corpo daqueles que refutavam e até temiam ouvir o repertório dos benditos tradicionais. Além dos rumores que se ouviu no salão da igreja, havia naquelas pessoas um som de outra natureza. Uma música feita de gestos, olhares, posturas e fisionomias irrompia cheia de silêncios, a qual eu era incapaz de compreender.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Uma cidade santa no sertão nordestino

O caráter da religiosidade que se estabeleceu na maioria dos estados do nordeste brasileiro foi sobremaneira marcado pelo projeto catequético implantado pelos frades capuchinhos italianos, por ocasião das missões itinerantes realizadas na primeira metade do século XVIII. A despeito da crença no paraíso e na glória de Deus, predominava uma orientação religiosa que estimulava a autopunição com o fim de aplacar os “rigores da justiça divina” (Silva 1982), modelo responsável por disseminar uma iconografia e um repertório musical que testemunham e configuram esse caráter devocional. Além desse discurso teológico, para o qual a reconciliação com Deus era consequência de uma vida voltada para penitência, as condições sociais fortemente marcadas pela seca e pela fome fizeram do sofrimento e da morte uma das principais insígnias do tipo de catolicismo que se estabeleceu no sertão nordestino.

Essa marca devocional, da qual seria principal representante a cidade cearense de Juazeiro do Norte, afastava-se dos cânones oficiais, os quais as consideravam como expressão de fanatismo e caráter supersticioso. A posição adversa da Igreja Católica em relação aos cultos populares foi intensificada pelo espírito renovador implementado pelo Concílio Vaticano I[1], o qual, dentre outras orientações, foi fortemente marcado pelo propósito de reforçar o controle clerical, nos moldes do ultramontanismo europeu e pela determinação de coibir as manifestações em que predominava a liderança leiga. Essa política de renovar o catolicismo tomando por modelo a ortodoxia romana ficou conhecida no Brasil por “romanização”, e como aponta Pinheiro (1989:195), o Estado do Ceará constituiu-se uma “área de romanização por excelência”, a qual teve como primeiro Bispo D. Luiz Antônio dos Santos, autêntico propagador do modelo reformador emergente. A aplicação da política de renovação no interior do nordeste brasileiro encontrou algumas dificuldades, pois além do combate eclesial imposto às manifestações do laicato, houve também, e principalmente, tensões internas envolvendo a própria hierarquia clerical. Essa postura da Igreja não recebia o apoio do povo, criando certas reservas em relação a sua autoridade, ponderações que no nosso entender ainda resistem silenciosamente na memória e perpassam a compreensão romeira em relação ao poder sagrado da Igreja.

Beata Maria de Araújo
Além do formato penitencial da catequese missionária e das prédicas dos sacerdotes simpáticos a este modelo pastoral, um acontecimento em especial protagonizado pelo Padre Cícero, então capelão de Juazeiro do Norte, conferiu a este município a chancela de cidade escolhida pela Providência, contudo deflagrou uma crise religiosa que marcaria profundamente a cultura, a política e a religiosidade nordestina. Numa missa em honra ao Sagrado Coração de Jesus celebrada no dia 1o de março da Quaresma de 1889, a hóstia distribuída à paroquiana Maria de Araújo verteu-se em sangue, acontecimento que se repetiria durante dois meses todas as quartas e sextas-feiras da Quaresma e que levou o Monsenhor Monteiro, então reitor do Seminário do Crato, município vizinho, a organizar uma romaria em direção ao povoado de Juazeiro do Norte, em cuja oportunidade, durante o sermão apresentou como sinônimo da manifestação prodigiosa da Providência os panos manchados pelo sangue que brotara da hóstia recebida por Maria de Araújo, e que segundo o clérigo tratavam-se do sangue de Jesus Cristo. Apesar dessa primeira manifestação pública, apenas em 1891, quando da repetição do prodígio, a imprensa cearense deu notoriedade ao fato, o que na óptica de Della Cava (1976) provocou um conflito eclesiástico na hierarquia católica brasileira e promoveu “um cisma em potencial dentro das fileiras do catolicismo do Nordeste”.

O “milagre” que dentre outras consequências referendara junto aos romeiros a santidade do Padre Cícero e da cidade de Juazeiro do Norte, não recebeu acolhida pela Igreja Católica, a qual considerou o acontecido um embuste (Della Cava, 1985) responsável por fomentar o fanatismo religioso em todo Nordeste, posicionamento que rendeu ao Padre Cícero sérias sanções eclesiásticas chegando o sacerdote a receber como punição a suspensão das ordens. O brado vigoroso que se levantou em todo Nordeste permanece ainda hoje no discurso do povo: “a Igreja diz que ele não é santo, mas a gente sabe que é”. Frases como esta, ditas em tom de acanhamento, são precipitadas frequentemente, não apenas entre os devotos de Juazeiro, mas da boca daqueles que para ali acorrem na esperança de alcançar graças, para render tributos de gratidão ou apenas para participar de romarias. Entre os romeiros, não há dúvidas sobre o milagre, tampouco sobre a santidade do Padre Cícero, sendo impensáveis quaisquer declarações que interpele o mérito da questão.

Representação iconográfica de Padre Cícero. À esquerda, sua representação mais comum, quando aparece vestido com uma batina preta de uso diário. A imagem à direita, representa-o trajando batina preta, uma sobrepeliz e uma estola escura, paramentos usados para celebrações litúrgicas, geralmente dentro das igrejas. Esta é a imagem que consta no interior dos oratórios de altares domésticos, sugerindo uma espécie de licença popular em relação à sanção que afastou o patriarca da administração de sacramentos.

O afluir de miríades de romeiros, seja para estabelecer residência ou para participar de romarias, propalou um tipo muito especial de epifania, que materializada nos objetos, na iconografia e, sobretudo, na música revela aspectos importantes desse credo religioso. Nesse contexto, o canto de benditos está intimamente integrado às práticas religiosas, tanto nas grandes romarias como nos pequenos ofícios do cotidiano. Seja encomendando a alma do defunto, embalando coreografias de danças religiosas, bendizendo o Menino Jesus em celebrações natalinas ou marcando o ritmo dos golpes de cilício nas cerimônias de autoflagelação, a música assume sempre um lugar de destaque, sendo impossível conceber uma procissão, uma novena, uma quermesse ou um funeral sem a "animação dos benditos”. 


[1] Concílio ecumênico realizado entre os anos de 1869 e 1870 que teve dentre as suas determinações o propósito de restaurar o prestígio da ortodoxia romana.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Primeiros silêncios